terça-feira, 8 de março de 2011

Pão Italiano – Cada vez mais perto



Como contei no post anterior, o meu desafio atual é conseguir fazer um autêntico pão italiano. Por não conseguir fazer em casa um “pé” (português), “levain” (francês) ou “leaven” (inglês), que exige cuidados quase diários, alimentando o fermento frequentemente e mantê-lo em condições controladas, resolvi usar a técnica do polish (água, farinha, um pouco de fermento fresco e só algumas horas de fermentação) e tentar achar a proporção perfeita entre esses ingredientes para chegar o mais próximo possível do pão italiano. Fiz algumas tentativas variando a relação farinha e água, porém não consegui chegar perto. O pão saia bom, gostoso, mas nem de longe era o pão italiano, com as características básicas de casca grossa, miolo macio e gosto levemente azedo.

Voltei à pesquisa. Fuçando na Internet, descobri meio por acaso um livro chamado Tartine Bread de Chad Robertson, que trata sobre Sourdought, ou ao pé da letra massa azeda. O Chad é proprietário da “Tartine Bakery” em San Francisco e desenvolveu uma técnica para fabricação do que ele chama de “Country Sourdought Bread”, que eu suponho seja o parente americano do nosso pão italiano. Procurei o livro na Saraiva e na Cultura. Nas duas a entrega demora várias semanas e custa mais de R$ 90,00, muito mais que os US$ 21 na Amazon. Devo tê-lo em alguns dias, com a Denise, minha cunhada, trazendo direto de Miami. No site da Amazon foi possível ver alguns trechos do livro, e por sorte justamente o que explicava como fazer o tal do “leaven”. Parece meio magia, pois tem que se conseguir criar um fermento a partir apenas de água, farinha (meio branca meio integral), temperatura minimamente controlada e bactérias e microorganismos apropriados presentes no ar para se conseguir a fermentação. A técnica exige que a mistura seja renovada todo dia, retirando um pouco da massa do dia anterior e adicionando água e farinha, até que a massa apresente bolhas e seu cheiro passe de azedo (como vinagre) para doce e consistência leitosa. Tudo isso a uma temperatura de 65ºF (18ºC).

Lá fui eu com as instruções na mão, em algumas folhas de papel e torcendo pra que no nosso ar tivessem as bactérias, que com certeza não faltam, mas que fossem apropriadas para fazer o milagre da fermentação. Comecei no domingo, 20/02 fazendo o “starter” (água e farinha), que ficou 3 dias reagindo com os microorganismos. Na quarta-feira comecei o processo de alimentar o “starter”. O desafio foi mantê-lo na temperatura próxima dos 65ºF, que para os americanos é próxima da temperatura ambiente, mas para nós, ainda mais nesse verão, não é nada fácil. Resolvi o problema colocando na minha estufinha o “starter” acompanhado de uma garrafa de água congelada. No sábado a mistura já estava reagindo bastante, cheiro não ácido e bem diluída, talvez o aspecto “milky” como dizia as instruções. Resolvi então fazer o meu primeiro pão com essa técnica. O problema é que o trecho do livro Tartine Bread que peguei na Amazon não trazia a receita do pão, ou seja, quanto de fermento, água e farinha. Lá fui eu de novo pra Internet e consegui achar um seguidor do Chad Robertson, que apresentava uma receita baseada no seu método. O primeiro passo é fazer o “leaven” - fermento usado na massa do pão - a partir do “starter”. Na noite de sábado, 26/02, uma semana após o início dessa aventura, seguindo as instruções, misturei água, farinha e parte do “starter” deixando a mistura dormir a noite toda na temperatura de 65ºF. Na manhã do domingo, reservei parte da mistura para o pão e parte foi novamente alimentada e deixada fermentar para constituir o novo “starter”, que pode agora ser conservado na geladeira e alimentado semanalmente. Para fazer o pão, segui as instruções da receita, mas a massa ficou muito mole e resultou um pão com uma casca pouco grossa, o miolo muito denso, ou seja, algo falhou no processo. Na semana seguinte alimentei meu “starter” na quarta-feira que reagiu bem, crescendo e com muitas bolhas na quinta (02/03). Isso mostrou que o erro não estava no “starter” que permanecia vivo, mas sim na elaboração do pão. Pra resolver, mais Internet, um vídeo e uma “time-table” da Tartine Bakery me deu as informações para uma nova tentativa. No sábado (05/03) comecei às 10:30hs. Comecei novamente o processo fazendo o “leaven” a partir do “starter”, que levou mais de 6 horas de fermentação. Depois fiz a massa, corrigindo pelo meu “feeling” a receita usada no fim-de-semana passado, obtendo uma massa bem mais consistente e maleável. O processo de manipulação da massa levou mais 6 horas, terminando às 22:30 hs. Pela receita ainda faltava 3 horas de crescimento final. Aí resolvi aplicar o que vi num filminho da Tartine e deixei a massa crescendo a noite toda em temperatura de 65ºF. Na manhã do domingo o pão estava bem crescido no ponto para ser assado. Aí usei outra dica que estava na receita: assar o pão no forno a 220ºC coberto por uma assadeira jateada com água. Isso cria um volume pequeno dentro do forno com bastante umidade que ajuda a criar uma casca bem crocante. Ficou nesse forninho por 20 minutos e depois mais 20 sem ele resultando uma casca dourada. O processo todo levou 22 horas, mas o resultado foi muito gratificante: o meu primeiro pão italiano feito em casa, com o fermento cultivado como fazem em São Paulo até hoje os descendentes de italianos desde o fim do século XIX. Talvez tenha sido sorte de principiante, mas vou continuar alimentando o meu fermentinho, aprimorar a técnica e continuar aprendendo...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pão Italiano



Em SãoPaulo a influência italiana está em toda parte: nos seus descendentes, onde me incluo, nos restaurantes típicos, nas festas religiosas e até nas padarias, mesmo dominadas pelos lusitanos, onde o pão italiano tem seu espaço reservado nas prateleiras. Na verdade o pão italiano que se encontra nas padarias e também em em alguns supermercados são feitos de uma mistura já pronta e industrializada. O verdadeiro pão italiano se encontra em algumas padarias que mantém o método tradicional há muitos anos, algumas há mais de 100 anos. É no bairro do Bexiga, na região central de São Paulo, que se encontram as mais antigas padarias italianas, fundadas por imigrantes italianos no início do século passado e tocadas até hoje por seus descendentes. As mais tradicionais são: Italianinha, São Domingos, Basilicata e 14 de Julho,a qual tive a oportunidade de visitá-la e constatar todo o processo de fabricação do pão italiano. Mas qual o segredo ou diferencial entre os pães italianos das padarias normais e dessas típicas italianas? O fermento, ou “pé” ou “levain” em francês. Nessas padarias o fermento é “cultivado” desde a sua fundação, sem interrupção por quase 100 anos diariamente. Esse fermento é composto apenas de água e farinha e segue um processo de fermentação natural – agentes da fermentação são fungos e bactérias presentes no ar. O problema e a beleza desse fermento é mantê-lo vivo, o que exige cuidados especiais e contínuos, alimentando-o periódicamente com água e farinha e controlando as condições de temperatura e umidade. Parte do fermento é usado na massa do pão e parte retorna ao processo de alimentação e fermentação natural, formando um cíclo contínuo que não pode ser interrompido para que o fermento não morra. Esse fermento é que dá as características de uma massa elástica, densa e levemente azeda e crosta grossa dos pães italianos.

Para os metidos a padeiros, como eu, o desafio de fazer um pão italiano em casa é conseguir fazer e principalmente manter esse “pé”, que vamos e venhamos é um “pé-no-saco”, pois exige temperatura controlada, alimentação em horas determinadas, ou seja, impossível para quem sai de casa cedo de manhã e volta á noite. Já lí capítulos de alguns livros a respeito, e o que achei que pudesse funcionar foi no livro Doughxxxde Richard Bertinet, comprado em Londres. O segredo, e a minha eperança de sucesso, era que o fermento podia ficar em geladeira, onde o processo de fermentação é retardado e portanto não exigia cuidados diários. Me enchi de coragem, comprei uma vasilha plástica com fecho ermético e lá fui eu fazer o meu fermento natural, que sonhava deixar de herança para os meus netos. Não funcionou, e hoje o meu recipiente ermético guarda misturas para pães compradas em Londres pela minhas filhas Mayra e Renata.

Porém não desisti e voltei aos livros. Há um outro tipo de pré-fermento que não exige tantos cuidados, mas dá ao pão alguma semelhança ao italiano. É chamado de polish e é feito também com água e farinha, mas leva um pouco de fermento fresco, que agiliza a fermentação ficando pronto em duas horas. O segredo do sucesso nesse caso é a proporção entre água e farinha no polish e água, farinha e o polish na massa do pão. Atualmente estou testando essas proporções, baseado em um livro (meio confuso) chamado PÃO de Sandra Canella-Rawls editado pelo SENAC. A primeira tentativa deu um pão muito mole (foi muita água), mas já com uma massa elástica e densa. Hoje, 06/02/11, estou tentando uma nova proporção e vamos ver o que vai dar. No próximo post eu conto.

domingo, 9 de janeiro de 2011



Cheiro de Natal 2

No último post, tinha falado sobre o pão que faço no Natal e que estava se tornando um costume e que talvez, um dia, uma tradição. Tinha dito também que tradição mesmo era o “Doce da Vó que é feito na família da Maria Inez há mais de 50 anos. A história que conheço desse doce é contada pela minha sogra, e por ela feito todo o Natal. Ela aprendeu com a sua sogra, que certamente trouxe essa receita da Itália, de onde veio. Assim, essa tradição começou com a avó da Maria Inez (Dona Valentina), continuada - provavelmente aperfeiçoada – pela sua mãe (Dona Nena), que há dois Natais passou essa responsabilidade para ela. Como eu já tinha a “fama” de padeiro, ficou para mim a missão de preparar a massa e montar os doces. A Maria Inez ficou encarregada do recheio, que na verdade é o segredo do doce. No Natal passado ainda fizemos com a supervisão da Dona Nena, mas este já fizemos por nós próprios. Nos saímos bem, pelo menos na opinião dos familiares, que disseram estar igualzinho ao da Dona Nena. Com certeza bondade deles, ou talvez tenha que ser encarado como um incentivo para continuarmos a tradição e não privar a família com o famoso “Doce da Vó”.

Como disse, o segredo está no recheio que mistura maças cozidas, marmelada, chocolate, nozes, açúcar e nós-moscada. A massa é igual a do preparo de macarrão, e o truque é abri-la bem fina, com o requinte de salpicar manteiga e umas gotas de limão. Cada doce é feito com uma parte da massa aberta em forma oval, dividida ao meio, coberta com o recheio, enrolada e unida as pontas formando um anel. O diferente é que o doce é frito. Vou ficando por aqui, porque todos da família vão ficar fulo da vida se eu der mais detalhes. Além de tradição, é meio como segredo. Ninguém, que conhecemos, tem a receita.

Sobre a nós-moscada a minha sogra, todo ano, conta a mesma história que a sogra dela, ao ver o preço da nós-moscada dizia: “esse é o último ano que se faz o doce”. Porém, nem nos períodos de inflação elevada e planos econômicos mirabolantes fizeram a dita subir tanto que impediu que a tradição fosse quebrada.

Esse doce é interessante por ser crocante (é frito) e principalmente pelo gosto particular. A princípio se acha estranho, mas com o passar dos anos, vai se apurando o paladar e aos poucos gostando a ponto de esperar com ansiedade a chegada do Natal. Isso ocorreu comigo também. Quando experimentei pela primeira vez, há uns 37 anos atrás, pensei comigo mesmo: o que esses caras veem nesse doce? Mas hoje como aos bocados. A Mayra (filha) e a Malu (sobrinha), ainda não são muito fãs, mas creio que seja uma questão de tempo. Chegamos a fazer no ano passado alguns apenas com recheio de chocolate, especial para elas, mas este ano a pedido da própria Malu, só fizemos com o recheio original.

Finalizando, quero postar aqui a honra de ser, juntamente com a minha esposa, os responsáveis por dar continuidade a esta tradição, e espero que permaneça por muitas gerações.

PS.

  1. Hoje me meti a fazer uns Danishes – no livro pãezinhos dinamarqueses. É um pão de massa folhada que tem uma forma parecida com um losango, creme em cima e uma fruta tipo damasco, pêssego em calda, etc. Foi a primeira vez que fiz esse tipo de massa. Sorte que pus apenas a metade da manteiga que a receita determinava, senão iria ficar um pasticho, como dizem os italianos. Na aparência ficaram razoáveis por ser a primeira vez, no gosto não sei ainda, acabaram de sair do forno. Pelo menos encheu a casa com o cheiro do pão.

  2. Registrei o domínio www.CheiroDoPao.com.br. O domínio www.cheirodepão.com.br já havia sido registrado, mas está sob processo de liberação. Neste caso o “de” e “do” não fazem a menor diferença- o cheiro é o mesmo. Ainda não construí o site que é projeto para os próximos meses.

domingo, 19 de dezembro de 2010


Cheiro de Natal 1

Depois de um longo inverno e uma preguiçosa primavera quando deixe de escrever no meu blog, não por ter parado de fazer meus pães, que não sei ficar sem eles, mas pela falta de inspiração para escrever. Agora retomo ao meu blog com um bom motivo: a tradição do Natal. A tradição de trocar presentes, das festas nas empresas, de reunir os amigos e familiares, se soma, para mim, a uma nova tradição de poucos anos, talvez ainda um costume, mas que me dá a oportunidade de fazer o que gosto: um pão especial que distribuo um para cada casa dos meus familiares. Este ano serão onze, e deve crescer a cada ano, com novas famílias sendo constituídas (certo sobrinhos?).
Na verdade faço esse pão apenas em duas ocasiões: em Dezembro, para o Natal e em Outubro para que o meu grupo de corrida do desafio Bertioga-Maresias possam manter a energia durante os 75 kms.
A receita original desse pão eu peguei no site www.allrecipes.com (tem receitas de tudo, inclusive, é claro, de pão). O nome dele é “Favorite Old Fashioned Gingerbread”. É um pão bastante condimentado com especiarias como canela, gengibre (ginger) e cravo. Eu incrementei a receita adicionando noz-moscada, uvas secas e castanha do Pará. A noz-moscada por influência do doce da vó que é feito na família da minha esposa, seguramente por mais de 50 anos ininterruptos (isso sim que é tradição - depois eu conto mais sobre ela). Inclui uvas secas e castanha para adicionar um toque de Natal ao pão. Além disso, é ótimo para os corredores, pois repõem as energias e combate os radicais livres liberados durante a corrida. Completa a receita açúcar mascavo (na original era açúcar refinado) e melado de milho (Karo). Dá pra ter uma idéia de quão calórico ele é. A primeira vista pode ser um ponto fraco, mas não é. Para não abusar nas calorias, come-se pequenos pedaços, e com isso ele dura mais, saciai a vontade por vários dias. Não se esquecendo dos corredores, pois as calorias que ele proporciona é o combustível para vencer as areias, subidas e descidas de Bertioga a Maresias. Tudo planejado? Não, talvez uma feliz escolha.
Quando está assando e enche a casa com o seu cheiro, o Natal vem à mente. É para mim um dos cheiros do Natal. Por se tratar de um pão com especiarias, ele fica melhor com o passar dos dias, pois elas vão se depurando, se misturando e enriquecendo o sabor. É realmente um pão para se apreciar, sentir cada um dos sabores, um treino para o paladar.
Como toda tradição, no começo é rejeitada, depois admitida e finalmente esperada. Assim espero que esteja acontecendo com esse meu pão, que ainda não tem nome. Talvez será o “pão-do-vô”, quando um dia, minhas filhas me derem essa suprema felicidade, e colocarem pela primeira vez na boca dos netos um pequeno pedaço...

sábado, 10 de julho de 2010

Pães que não vão ao forno


Como meu forno elétrico deu pra não assar direito – acho que o sensor de temperatura deve estar com defeito e, meus dois termômetros de forno também bicharam – está cheirando a sabotagem, resolvi ir pra forra e fazer e escrever sobre um tipo de pão que não precisa de forno. O “Enflish Muffin”

O English Muffin é assado em uma chapa, como essas usadas nos bares pra servir a tradicional média com pão e manteiga (na chapa, claro). Eu tenho uma chapa que veio com um fogão antigo e que nunca me desfiz dela. Mas pode-se usar aquela chapa de ferro fundido que tem cabo, parecida com frigideira.
Diz a história que o ‘English Muffin” surgiu na Inglaterra na era Vitoriana consumido pelos serviçais. Era inicialmente feito com sobras de massas de pão, grelhadas na chapa, o que faziam os muffins ficarem leves e crocantes. Porém quando as classes mais abastadas descobriram como era bom comê-los, os muffins foram valorizados e consumidos por todos. Surgiram fábricas por toda a Inglaterra e podia se ver os “muffins men” vendendo seus muffins carregando em seus ombros bandejas de madeira. Isso perdurou até o começo do século passado. Os “muffins” são tão tradicionais na Inglaterra que há até uma cantiga de ninar inglesa que diz:

Have you seen the muffin man, the muffin man, the muffin man?
Have you seen the muffin man who lives in Drury Lane?

A palavra “muffin” é originária do francês “mouffet” que significa macio quando se refere a pão. Não se deve confundir o “Englisn Muffin” com o “Muffin” americano que é um bolinho ou “cupcake”.

A massa do “English Muffin” é mais elaborada que a do pão frances, pois além de água, sal, farinha e fermento, vai leite, gordura e açúcar, o que dá mais macies e durabilidade ao pão.

A receita básica do “English Muffin” é:
½ xícara de leite morno; ½ xícara de água morna; 1 colher de sopa de açúcar; 1 colher de sobremesa de sal; 2 colheres de gordura (uso manteiga de forno e fogão derretida – tem pouca gordura saturada); 3 xícaras de farinha e 1 colher de sobremesa de fermento ativo seco.
Dissolva o açúcar e o fermento no leite e água, deixando repousar por 5 minutos para ativar o fermento. Enquanto isso misture a farinha e o sal. Junte aos poucos o fermento ativado e trabalhe a massa até ficar macia e homogênea. Deixe repousar por ½ hora, ou até dobrar de volume. Forre uma assadeira com papel manteiga e polvilhe com farinha de milho. Abra a massa na espessura de mais ou menos 1 cm. Recorte os muffins usando a boca de um copo, ou uma lata de atum. Coloque na assadeira e polvilhe farinha de milho sobre os muffins. Deixe-os crescer por mais ½ hora. Por fim, aqueça uma chapa asse os mufins por 10 minutos de cada lado. Para servir, corte o “English Muffin” ao meio e coloque em uma torradeira. Coma no café da manhã, bem tostado com manteiga, frios ou geléias.

Esse era o pão que eu e minha família comíamos todas as manhãs quando moramos nos EUA. Hoje a cada fornada que faço, vem a lembrança das compras no supermercado dos “English Muffins” e os complementos “half pound of turkey ham and suisse cheese”.

Numa próxima postagem vou falar sobre outros tipos de pães que usam outros métodos de coação – ato de cozer o pão, como os Bagels que são cozidos e só levados ao forno para criar a casca.

Com licença, pois a torradeira já destravou e meu “english muffim” tostadinho me espera para um delicioso lanchinho...

domingo, 13 de junho de 2010

Livros de pão e experiência com fermento


Na mesma época que comprei a minha primeira máquina de pão, quando estava trabalhando nos arredores de Boston, lá nos idos de 2000, comecei a me interessar por livros de pão. Perto do hotel tinha uma filial de uma das mais famosas livrarias dos USA – Barnes & Noble. Um mundo para quem gosta de livros. Acha-se de tudo inclusive livros de culinária e mais especificamente de pão, que me causou surpresa devido a quantidade e variedade de títulos. Foi aí que comecei a minha coleção. Hoje tenho mais de 20 livros com muitas histórias, técnicas e receitas de pão. É incrível a variedade de pães. Um dia ainda vou classificar todos os tipos que aparecem nesses livros. Tenho um livro que ganhei das minhas filhas Mayra e Renata. Chama-se Pão da Paz do Paulo Braga onde ele apresenta 195 pães diferentes cada um típico de um país membro da ONU. É um livro maravilhoso, com um pouco de história do pão de cada continente além da receita e lindas fotos de cada deles.
Hoje quando vou a uma livraria, fico garimpando livros de pão. Tenho achado várias pechinchas e claro não perco uma. Minha próxima aventura será garimpar em cebos. Livros de pão toraram-se presente para mim. Tenho ganho vários. Hoje mesmo a Mayra me trouxe um de Londres que a Renata comprou para mim. Muito interessante: além de receitas, conta a história do pão acompanhando a evolução da humanidade.
Cada livro trás novidades, novas experiências de como trabalhar a massa, como fazer diferentes formatos, variedades de misturas, etc. Um verdadeiro fermento para a minha curiosidade. Um desses livros mostrava como cultivar um fermento que se alimenta de farinha e pode permanecer ativo por décadas. E quanto mais velho, mais concentrado e mais rico o sabor do pão. Alguns se referem a ele por desem, outros levain. Fazê-lo é um processo trabalhoso que requer cuidados metódicos para manter a temperatura e a “alimentação” periódica para não deixar o fermento “morrer”. Fiquei curioso e tentado a fazer, mas logo vi que a dedicação que meu trabalho exige não iria me permitir fazer essa experiência. Coincidentemente, há algum tempo atrás saiu uma reportagem no Estadão contando que algumas padarias tradicionais de São Paulo, especializadas em pão italiano, conservam um fermento há mais de 100 anos. Há pouco tempo atrás, visitei uma delas. O padeiro me mostrou o dele e que para mantê-lo vivo deveria retornar à padaria naquele mesmo dia, por volta das quatro da tarde, só para adicionar mais farinha.
Há um processo mais rápido de se fazer um fermento de massa (levain), que só requer de 4 a 6 horas, mas claro não deixa no pão a marca de anos de aprimoramento. Porém adiciona mais sabor e leveza ao pão.
Hoje fiz um pão usando levain – vejam a foto. A massa ficou muito maleável e o resultado final foi um pão saboroso, de crosta rígida e miolo mais denso. Recheei com pedaços de queijo tipo coalho que armonizou muito bem com a massa. Reunimos parte da família e comemoramos com esse pão e deliciosos capuccinos, chococcinos e outros ccinos o trigésimo aniversário da Mayra. Parabéns e um beijo para ela.

domingo, 23 de maio de 2010

Primeira receita e um pouco de história


Como escrevi anteriormente, usando uma grande variedade de ingredientes, podemos criar pães para vários gostos e ocasiões. Pães salgados ou doces, recheados ou condimentados, para acompanhar o café da manhã ou uma refeição, para ver, cheirar ou saborear. Um pão que gosto muito, é um bom companheiro de café com leite quentinho e também nutritivo é o pão de aveia. A farinha de aveia é muito fácil de se achar em supermercados, fica junto das aveias em flocos ou flocos finos. Esse pão é mais sofisticado que o básico mencionado no post anterior, mas o modo de preparo é semelhante. Vamos aos ingredientes: 2 + ¼ xícaras de farinha de trigo, 3/4 de xícara de farinha de aveia, 1 xícara de água, 2 colheres de sopa de óleo – girassol ou canola, 2 colheres de sopa de açúcar, 1 + ½ colher de chá de sal, 1+ ½ colher de chá de fermento biológico seco instantâneo – vendido em envelopes de 10gr. ou 1 tablete (15gr.) de fermento fresco.
Misture em uma vailha grande a farinha de trigo e farinha de aveia e reserve. Misture a água, óleo, açúcar e sal. Se for usar fermento fresco, misture-o com 1 colher de açúcar e depois adicione ao líquido. Se for usar fermento seco, misture diretamente na farinha. Adicione aos poucos o líquido à farinha até obter uma mistura homogênea. Trabalhe a massa conforme descrito no post anterior, escolha um formato para o pão – prefiro redondo como broa, ou vários pãezinhos. Se preferir, antes de ir ao forne, pincele com clara e salpique flocos de aveia. Asse em forno a 200 oC por aproximadamente 30 minutos – de uma olhadinha de vez enquando para ver se já está “light brown”. Desfrute primero o cheiro, depois o sabor de uma fatia quentinha desse pão saudável.
Como me dá cosquinhas para contar histórias, lá vai mais uma:
Trabalhar a massa com as mãos dá a sensação de intimidade, mas as vezes não há tempo e devo confessar vontade de fazer tanto exercício. Assim, comecei a cobiçar uma máquina de pão. Na época, por volta do fim do século passado – não faz tanto tempo assim como a frase pode sugerir, não havia máquina de pão a venda no mercado nacional. Ficava vendo sites de lojas nos USA e cobiçando aquelas maravilhas que faziam tudo sozinhas. A oportunidade surgiu quando no final de 2000 fui trabalhar por alguns meses na região de Boston. Fomos todos para lá – mulher e filhas passar as férias de fim de ano. Havia uma loja de departamentos chamada Bradelles – já conhecíamos desde a primeira vez que moramos lá por mais de um ano, que estava liquidando tudo. Para nossa surpresa estava fechando – “out of business sale”. Passeando pela loja, para aproveitar a liquidação, achei a minha primeira máquina de pão por uma pechincha: $43,00. Comprei na hora, e lá fomos nós para o hotel com o meu mais novo brinquedo. Nós quatro estávamos hospedados em um flat onde havia uma cozinha integrada a sala e ao quarto. Era muito conveniente, porque podíamos fazer nossa comida. No inverno de –20 oC nem sempre é agradável sair pra comer. Outra vantagem de estarmos os quatro em um mesmo quarto foi a convivência e intimidade que uniu ainda mais a família e pode nos mostrar e aceitar as diferenças e semelhanças de cada um vividas 24 horas por dia. Ter a cozinha integrada ao quarto, produziu uma surpresa que nos faz lembrar do local, depois de muitos anos, pela memória olfativa. Fuçando no manual da máquina, descobri que podia programá-la para que o pão ficasse pronto na manhanzinha do outro dia. Coloquei os ingredientes na ordem sugerida, e programei para o pão ficar pronto por volta das 7:00hs. Lá pelas 6:45, acordamos com um aroma maravilhoso que preenchia todo o quarto. Era o cheiro do meu primero pão feito na minha primeira máquina de pão...